Entre a lenda e a realidade, a diferença pode ser enorme ou quase nenhuma ... Miguel Roque


Lendas do Alentejo


 

 

  Mitos e Lendas de Aljustrel

                                   Lendas da Nossa Senhora do Castelo

Faz parte do imaginário popular, uma lenda que tenta justificar a inclusão na planta da igreja de uma rocha pertencente ao conjunto de afloramentos existentes em todo o morro do Castelo.

 

Conta essa lenda que em tempos muito recuados, Nossa senhora terá aparecido em cima dessa rocha. Quando foi decidido construir o templo, obviamente que ninguém pensou incluir a dita pedra na sua estrutura, porém, sempre que se começava a erigir a igreja, deixando a pedra de fora , a obra ruia.

 

Somente quando o templo foi construido, utilizando a pedra como alicerce, o edificio conseguiu aguentar-se de pé.

Uma outra lenda que tem a ver com esta pedra, embora com caracter mais profano, refere que ao encostarmos o ouvido à pedra, podemos ouvir o barulho do mar e que, se porventura, essa pedra fosse arrancada, o mar entraria por aí e alagaria a Vila de Aljustrel.




 

                              Mitos e Lendas de Beja

                                                    Lenda de Beja

Todas as terras, principalmente do Sul, têm a sua lenda.
Muito ao contrário das lendas de outras terras, que metem geralmente moiras encantadas, Beja também tem a sua lenda.

E esta pretende justificar a razão porque se encontra no escudo da cidade a cabeça de um toiro.
Diz-nos a lenda: - «Muito antes dos lusitanos, o local onde hoje se encontra a nobre cidade de Beja com as suas muralhas romanas, com os seus prédios góticos, com a mesquita árabe, com o castelo do princípio da monarquia portuguesa e, consequentemente, essa Beja com documentos que representam 4 civilizações, era pequeno povo que vivia em cabanas cobertas de colmo, que apenas se empregava no exercício da caça.

Todos esses campos ubérrimos de pão que vemos hoje, eram um compacto matagal, impossível em alguns pontos de ser penetrado pelo homem».

«E uma serpente, uma serpente monstro que tudo matava, tudo triturava, era a horrível preocupação do povo que habitava no local que mais tarde, no tempo dos romanos, se havia de chamar Pax-Júlia, depois no domínio árabe se chamou Buxú e presentemente se chama Beja».
«Um ardil porém germinou no cérebro de um habitante dessa região: Envenenar um toiro, deitá-lo para a floresta onde existia a tal serpente. Aprovada por todos essa ideia, o toiro foi envenado e deitado para o local indicado».

                                                Uma Luz Misteriosa

As histórias de lobisomens e de bruxas eram vulgares no meio rural tradicional.
Maus encontros com animais a horas tardias, doenças provocadas por mau querer (feitiçarias), filtros de amor (beberagens para atrair ou afastar paixões, visões, vozes, são elementos do vasto manancial do imaginário popular sobre forças maléficas.

Há, contudo, outro tipo de histórias que são comuns a várias aldeias e vilas do Alentejo.

É o caso da estranha luz que, de noite, acompanhava os viajantes (normalmente pastores, almocreves e, mais recentemente, tractoristas que de noite procedem às grandes charruadas).
Era uma luz que seguia o caminhante sem, contudo, o incomodar. Conheci algumas pessoas que afirmavam terem sido seguidas por essa luz. A luz acompanhava o viajante, seguindo a seu lado, parando quando este parava, e acompanhando a velocidade da deslocação.

Nenhuma das pessoas que conheci, e que afirmavam ter estado em contacto com o fenómeno, esboçou qualquer reacção. Para essa passividade contribuiu seguramente o facto de ser conhecida a reacção da luz quando atacada.

O fim da história que apresentamos é relativamente benéfico. Com efeito, noutras descrições, que a tradição popular registra, a luz, quando hostilizada, conduz à morte do atacante.

 História veridica: Algures na região de Beringel (Beja), o meu pai tinha um amigo que não acreditava em coisas estranhas, daquelas que se contam nas aldeias.
Naquele tempo, corria o boato de que havia no campo uma espécie de luz de cor vermelha que andava de um lado para o outro, mas que não se deixava ver de perto.
Amigos do meu avô afirmavam que já a tinham visto, e esse homem que não acreditava disse, na brincadeira:
“Se eu a encontrar, desfaço-a toda aos bocados com o meu cajado”

O que vos conto a seguir é a narração do próprio.
“Numa noite, eu ia guinado a minha charrete e lá estava à minha frente a luz vermelha parada em cima do muro.

 Saí, peguei no cajado e disse com ar forte e corajoso:
Já que aí estás, então espera, que já vais ver o que é para a saúde! E assim dirigi-me até junto dela e tentei dar-lhe com o cajado, mas não consegui porque ela se desviou.
Continuei à cajadada com ela, mas falhava sempre e ia ficando mais furioso. Voltei para a charrete quando ela se voltou contra mim. Não sei o que aconteceu (parecia que estava levando uma grande tareia) e desmaiei.
Os cavalos voltaram para casa e eu fui na charrete como morto.
Na manhã seguinte, a minha mulher, já preocupada, foi ver se eu estava dormindo na charrete.

Ela diz que eu estava com a roupa toda rasgada, todo cheio de sangue, que parecia morto. Mas estava apenas desmaiado. Depois a minha mulher tratou de mim e nunca mais quis ouvir falar dessa luz.”

                                                       O lobisomem

Segundo a tradição, colhida em vários relatos, a acção de queimar as roupas do lobisomem, que este despia quando ia fazer as suas correrias durante a noite, parecia ser o meio mais comum de livrar uma pessoa do seu triste destino.
Esta acção pruficadora / salvadora tinha porém, os seus riscos, pois desencadeava poderosas forças maléficas, tornando o lobisomem violento.
Enquanto as roupas ardem, é vulgar ouvirem-se gritos e violentas pancadas são aplicadas nas portas das casas onde se faz a fogueira. É o momento purificador para o lobisomem e o de maior tensão para o salvador.
Com o fim do fogo, terminado o feitiço, o homem salvo aparece tranquilo, nú e inocente. Ficou Livre.
Este Mito passou-se em Beja há muitos anos. Um rapaz, que era lobisomem, saía de casa por volta da meia noite, para se ir encontrar com outros lobisomens e com bruxas numa encruzilhada.
Daí saíram juntos e iam para o campo onde se despiam e dançavam em roda. Numa noite, quando ele se transformava, uma pessoa da sua família viu-o e apoderou-se das roupas para as queimar.
Se o conseguisse fazer, poderia acabar coma sina do lobisomem ao seu familiar. O desvio da roupa foi feito com cuidado pois, se o lobisomem o tivesse presenciado, poderia correr atrás da pessoa e matá-la.
O familiar do lobisomem levou as roupas para um casão, para aí as queimar, tendo tido o cuidado de fechar bem o portão do casão, onde fez uma fogueira.
Logo que começou a queimar as roupas, começaram a ouvir-se grande sgrunhidos e fortes pancadas no portão. Embora com medo, pois as pancadas no portão eram cada vez mais fortes, o familiar do lobisomem continuou a queimar as roupas.
Com receio, ficou no casão até de manhã. Ao amanhecer, abriu o portão. Lá estava o rapaz estendido, nú, como uma pessoa inocente. O fadário de lobisomem estava quebrado.

                                               O Cinto do Lobisomem

Numa terra aqui do concelho de Beja, havia um lobisomem, que se transformava sempre numa encruzilhada, ou seja (um cruzamento de quatro ruas ou travessas).
Numa noite, já a altas horas, numa dessas encruzilhadas, o lobisomem transformou-se num chibo. Quando isto se passou, um outro homem ali passou e encontrou o chibo.
Quando o viu, disse logo para com ele:
-  Vou levá-lo para casa.
Tirou o cinto das calças e colocou nas pernas do chibo para o poder levar ás costas.
Quando ia no caminho com o chibo, ás costas cada vez lhe pesavam mais. Não aguentado o peso, tirou-o das costas para ver o que se passava. O chibo, muito rapidamente, pregou-lhe valentes coises e fugiu.
No outro dia, no trabalho, passou por ele um rapaz da aldeia que tinha fama de ser lobisomem. E não era que o rapaz trazia á volta da cintura, o cinto que tinha servido para amarrar o chibo na noite anterior. Era preciso mais para se identificar o lobisomem?

                                             A Lenda da Costureirinha

Entre as crenças que algum dia existiram no Baixo Alentejo, a da costureirinha era uma das mais conhecidas. Não é difícil, ainda hoje, encontrar pessoas de alguma idade, e não tanta como isso... que ouviram a costureirinha.
O que se ouvia, então? Segundo diversos testemunhos, ouvia-se distintamente o som de uma máquina de costura, das antigas, de pedal, assim como o cortar de uma linha e até mesmo, segundo alguns relatos, o som de uma tesoura a ser pousada. Um trabalho de costura, portanto.
O som trepidante da máquina podia provir de qualquer parte da casa: cozinha, quarto de dormir, a casa de fora, e até mesmo de alpendres. De tal modo era familiar a sua presença nos lares alentejanos que não infundia medo. Era a costureirinha.

Mas quem era ela? Afirma a tradição que se tratava de uma costureira que, em vida, costumava trabalhar ao domingo, não respeitando, portanto, o dia sagrado. É esta a versão mais conhecida no Alentejo. Outra versão afirma que a costureirinha não cumprira uma promessa feita a S. Francisco. Esta última versão aparece referenciada num exemplar do Diário de Notícias do ano 1914 em notícia oriunda de aldeias do Ribatejo. Pelo não cumprimento dos seus deveres religiosos, a costureirinha fora condenada, após a morte, a errar pelo mundo dos vivos durante algum tempo, para se redimir.
No fundo, a costureirinha é uma alma penada que expia os seus pecados, de acordo com a crença que os pecados do mundo, o desrespeito pelas coisas sagradas e, nomeadamente, o não cumprimento de promessas feitas a Deus ou aos Santos podiam levar à errância, depois da morte.
Já não se houve, agora, a costureirinha? Terminou já o seu fado, expiou o castigo e descansa em paz? A urbanização moderna, a luz eléctrica, os serões da TV, afastaram-na do nosso convívio. Desapareceu, naturalmente, com a transformação de uma sociedade rural arcaica, que tinha os seus medo, os seus mitos, as suas crenças e o seu modo de ser e de estar na vida.



 
 

 Página criada por : Miguel G. Roque

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